Por muito tempo eu pensei que a dor fosse uma sentença. Ela chegava como quem fecha uma porta, como quem apaga a luz de um cômodo inteiro, como quem diz que dali em diante nada voltaria a ser simples.
Mas, aos poucos, comecei a perceber que algumas dores não vinham para me destruir. Elas vinham para me interromper.
Interromper a pressa. Interromper as distrações. Interromper a tentativa de continuar vivendo longe daquilo que era verdadeiro dentro de mim.
Há dores que arrancam máscaras. Há silêncios que devolvem perguntas. Há perdas que nos fazem enxergar o quanto estávamos tentando permanecer em lugares onde a alma já não respirava.
Isso não torna a dor bonita. Não torna leve aquilo que pesa. Não transforma ferida em poesia antes da hora. Mas existe um instante, quase imperceptível, em que aquilo que parecia apenas quebrar começa também a revelar.
Foi nesse lugar que comecei a entender que cura não é esquecer. Cura é olhar para a própria história sem precisar fugir dela. É permitir que Deus entre justamente onde eu escondia a parte mais frágil de mim.
Talvez a dor não quisesse me destruir. Talvez ela estivesse me chamando de volta.
De volta para a verdade. De volta para a presença. De volta para uma vida onde eu não precisasse mais me abandonar para caber.
